E Donald Trump levou a eleição de 2024. Que até a véspera era considerada um cara-ou-coroa por absolutamente toda a imprensa, institutos de pesquisa e think-tanks de análise política.
Volta à Casa Branca em um retorno espetacular, depois de uma derrota contestada, uma tentativa de invasão do Capitólio, dois processos de impeachment, condenações legais, documentos governamentais ilegalmente transferidos para sua residência privada, e toneladas de controvérsias.
Muita saliva (e lágrimas) por parte dos comentaristas (não tenho uma palavra tão boa como pundit, que se usa em inglês, mas vem do hindi), notavelmente no Brasil. Eleições nos EUA são fortemente emocionalizadas pela imprensa brasileira. Com alguma razão por conta das implicações econômicas, como veremos, mas com muita vã paixão ideológica, e uma dose cavalar de ignorância. Muita bobagem também, então vamos tentar colocar alguns fatos em ordem.
Vamos começar essa discussão voltando quatro anos: porque Trump não foi reeleito em 2020? Basicamente porque seu estilo de retórica agressiva não funcionou bem contra Joe Biden. Não funcionava no momento histórico marcado pela pandemia de Covid-19 e pelas reações que se seguiram ao assassinato de George Floyd naquele ano. Os nervos do país estavam expostos demais para seu estilo.
Além disso, difícil demonizar um adversário pacato como Biden, que funcionou completamente nas sombras de Obama em seus oito anos como vice-presidente. Simplesmente não havia o que falar.
Ainda assim, os estados que os democratas recuperaram naquele ano foram ganhos por margens bem apertadas: Nevada (33 mil votos),Wisconsin (20 mil votos), Georgia e Arizona (12 mil votos cada) foram definidos por diferenças exíguas. Estes quatro estados representam 44 votos eleitorais, que somados aos outros 232 que Trump efetivamente recebeu, dariam 276 votos, acima dos 270 necessários para elegê-lo. Os dois outros estados recuperados pelos democratas foram o Michigan (diferença de 150 mil votos) e Pennsylvania (estado de Biden, com diferença de apenas 80 mil votos). O ponto aqui, fora os detalhes do intrincado sistema eleitoral americano, é que apesar do ambiente desfavorável, Trump perdeu a eleição por muito pouco, considerando um universo de cerca de 155 milhões de votantes.
Essa minha digressão sobre a eleição anterior é para mostrar que Biden assumiu a Presidência pisando sobre gelo fino. O Senado ficou empatado (sua vice, Kamala Harris, funcionava como voto de Minerva: a constituição americana coloca o vice-presidente como o presidente da câmara alta). A Câmara seguiu com os democratas, mas por margem estreita de apenas 4 deputados.
O grande problema do mandato Joe Biden foi a inflação. Consequência da injeção maciça e descontrolada de dinheiro na economia americana para contrabalançar os efeitos da pandemia. Como efeitos de políticas levam um tempo para serem notados, a inflação descolou de 1.2% em 2020 para cerca de 8% em 2022. O dado anualizado de setembro de 2024 mostra 2.4%.
Estes números forçaram o Federal Reserve a uma política econômica restritiva, com juros bastante altos para os padrões da economia local. Mais que isso, o aquecimento do mercado de trabalho fez com que o Fed mantivesse os juros sem cortes durante boa parte deste ano. E só cortou quando houve sinais de que poderia haver uma recessão em curso (o que acabou não se confirmando até o momento).
Mas com atividade aquecida, pleno emprego (especialmente no setor de serviços) e uma inflação que depois de um período de descontrole estava convergindo para um valor aceitável, por que havia insatisfação popular com a economia?
O ponto fundamental são as famílias de renda média e baixa. De certa forma, o mesmo eleitorado que sofre com a desindustrialização dos EUA e que elegeu Trump em 2016. Podemos concentrá-lo nos estados do Rust Belt para efeito de análise, mas eles estão no país todo. A percepção destes segmentos é que a inflação corroeu seu poder de compra. E como são menos envolvidos com a fatia mais bem remunerada do setor de serviços, não puderam recompor este poder de compra.
Aqui cabe mais uma digressão histórica sobre o item mais importante do lema MAGA (Make America Great Again). No auge da Guerra Fria, o Secretário de Estado de Richard Nixon, Henry Kissinger, engendrou uma aproximação entre China e os EUA como contraponto à União Soviética. Esta aproximação foi muito bem aproveitada por uma nova política econômica adotada no país asiático com a ascensão de Deng Xiaoping. Em linhas muito gerais, a China tinha mão de obra barata e pôde transformar-se em “fábrica do mundo”.
Mas este movimento trouxe duas consequências para os Estados Unidos: a desindustrialização e o surgimento da China como potência desafiante no plano econômico e político (retomarei esse tema posteriormente, quando falar das ambiguidades de Trump). Trump endereça as duas questões o tempo todo. A desindustrialização (acelerada pela revolução tecnológica) fez com que a quantidade de empregos industriais nos EUA diminuísse significativamente. Mesmo com a volta de parques fabris que foram para paragens mais baratas, não teríamos o mesmo número de empregos, já que a automação também mudou o panorama da indústria. Mas é essa desindustrialização que criou as condições para que estados que tradicionalmente votavam no Partido Democrata (o famoso Rust Belt) passassem a votar em Trump. Essa foi a grande surpresa de sua eleição em 2016.
Ao prometer tornar a América grande novamente (MAGA), Trump está falando diretamente a este público. Que, como dissemos, está ainda sofrendo os efeitos da inflação pretérita. Este público (onde se encaixa perfeitamente o vice de Trump, J.D. Vance) também está desencantado com a desconexão dos democratas com o americano comum, WASP (branco, anglo-saxão, protestante), sem estudo superior e empobrecido. O Partido Democrata tornou-se um partido de acadêmicos arrogantes, impondo sua visão de mundo politicamente correta. Quer fazer o americano comum, que come assiste esportes comendo suas picantes e gordurosas buffalo wings regadas a Budweiser gelada trocá-las por um insosso aperitivo de fibras veganas light com hard-kombucha orgânica.
Outro exemplo desta desconexão é a obsessão com pautas identitárias que tomou a América de assalto. E que foi agravada pelo episódio George Floyd e pelo movimento Black Lives Matter. A resposta do establishment foi tentar inculcar no branco o sentimento de culpa por sua branquitude. Talvez funcione para o universitário de classe média alta que se ajoelha diante de negros para pedir perdão ou para o executivo que é obrigado a assistir intermináveis seminários, provavelmente com uma “estudiosa” branca no estilo Robin DiAngelo, pontificando sobre privilégio branco. O ato de contrição lava suas consciências e no final do dia tudo continua como dantes. Para o branco pobre, preocupado com fechar as contas no fim do mês, começa a ser o caso de se perguntar: “peraí...eu estou aqui completamente em apuros (ia empregar outro termo, mas alguns de meus leitores ficariam escandalizados) e ainda me dizem que EU sou privilegiado???”
E no mesmo arrastão, enfiaram garganta abaixo do país as pautas ligadas a diversidade sexual. Transexuais devem representar alguns milésimos da população geral. Mas qualquer análise de contagem de artigos de imprensa ou de tempo de televisão mostra que os EUA despendem uma quantidade desproporcional de energia para discutir banheiros unissex, pronomes neutros e outros artefatos culturais correlatos. A conversa identitária e politicamente correta simplesmente cansou o americano comum.
E chegamos ao delicado e sensível tema da imigração. O nosso americano comum, decaído da classe média, ainda tem que enfrentar a concorrência de imigrantes ilegais que trabalham mais barato. Não bastasse isso, a questão da violência urbana parece ter explodido nos EUA, agravada pela existência de imigrantes ilegais. Nem todo ilegal é um criminoso e nem toda a violência é cometida por ilegais. Mas em termos de comunicação, é muito fácil associar as duas coisas. E comunicação é a praia de Donald Trump. Mesmo com repetidas ofensas a imigrantes em geral e latinos em particular, foi excepcionalmente feliz em capturar o voto hispânico nesta eleição. E por qual razão? O latino já estabelecido também sofre com a concorrência do trabalho ilegal e com a insegurança.
Para completar, os anos Biden mostraram um presidente envelhecido. A questão tornou-se absolutamente evidente em um debate já em junho, quando Biden visivelmente estava falhando em sua acuidade ao responder às questões de Trump. Não houve uma preparação do partido democrata para essa situação. Kamala foi improvisada como candidata sem o processo de primárias do partido. O problema é que seu carisma é apontado como nulo e suas habilidades de oratória são consideradas semelhantes às de Dilma Rousseff. Assim, o Partido Democrata, além de desconectado do eleitor chave, ainda tinha uma candidata improvisada.
Trump fala em trazer de novo as indústrias para os Estados Unidos, através de duas macropolíticas: tarifação agressiva de importações e cortes substanciais de impostos para empresas. Este movimento já é de certa forma uma realidade, porque começou a ser implementado no primeiro mandato de Trump e continuou no mandato de Biden.
De um ponto de vista de longo prazo, faz um certo sentido. Mas é algo que terá dores inescapáveis, e os resultados podem não ser tão auspiciosos.
Em um primeiro momento, taxar importações terá o efeito de aumentar a inflação. Os americanos consomem produtos industrializados comprados baratos da China (e cada vez mais de outros países como Índia, Vietnam, Bangladesh). Sobretaxar essas importações vai ter efeito imediato na inflação para o consumidor.
Mesmo no longo prazo, a tendência é que nem todos os empregos perdidos sejam recuperados. O perfil da indústria mudou, e a automatização é muito maior.
O final de 2018 viu efeitos ruins sobre as bolsas americanas. Em julho daquele ano Trump colocou em prática uma série de aumentos de tarifas, que vinham sendo ameaçadas desde o início de seu mandato. Até o final do ano, o índice S&P500 cairia quase 20%. Para as empresas menores, o efeito foi ainda pior. O índice Russel 2000 caiu quase 30%.
É verdade que, pós pandemia e inflação os índice acionários estão muito superiores a estes patamares. O ponto aqui é que o efeito de curto prazo das tarifações é perverso tanto para consumidores e empresas.
Em um espectro de tempo mais dilatado, é possível que traga indústrias para dentro do país. E um efeito positivo viria do nearshoring, com o México recebendo mais indústrias, o que teria o poder de acalmar um pouco a crise migratória.
Do ponto de vista dos cortes de impostos para corporações, o efeito seria aumentar o déficit americano. No fim das contas, é transferência de renda para detentores de títulos públicos (juros mais altos por mais tempo) e para acionistas de empresas (menos impostos, mais dividendos e mais valorização das ações). O investidor deve ter isso em mente.
Por fim, fica a questão das restrições à imigração ilegal e deportações. Do ponto de vista econômico, aponta-se que essas medidas aumentariam o custo do trabalho e provocariam inflação. Entretanto, teria o poder de reempregar americanos órfãos do processo de desindustrialização. Provavelmente em funções de menor remuneração, mas ainda assim seria uma melhoria. Provavelmente haveria impacto positivo na questão da segurança pública, o que anima a gastar mais e investir mais.
A questão é o custo político. Até que ponto o público terá estômago para acompanhar deportações à força? Reportagens sobre crianças separadas dos pais em abrigos na fronteira conseguiram para criar e amplificar a persona do Trump Malvadão. Política é comunicação, então fica a questão de como esse ponto será tratado.
Outro ponto a considerar é o tamanho de seu apoio nas casas legislativas: 52 senadores são maioria, mas os checks and balances (freios e contrapesos) do sistema constitucional americano permitem que caso um lado não tenha 60 senadores, o outro lado pode manter abertas as discussões indefinidamente (o mecanismo é chamado filibuster). O mecanismo é uma salvaguarda democrática para conter legislações que não tenha uma maioria realmente absoluta (3/5 do senado). Na câmara, Trump deve obter a maioria, mas também será uma maioria pequena, reduzindo bastante arroubos mais autoritários.
Vamos tratar um pouco dos pontos mais obscuros da política trumpiana. Todos eles têm a ver com a personalidade do presidente.
A história é feita por narcisistas, sabemos. Mas ali o grau de narcisismo ocorre em nível surpreendente sob qualquer ótica. Com o histórico de empreendedor, apresentador de televisão e uma carreira tardia como político, Trump chega a seu segundo mandato como presidente sob uma miríade de polêmicas.
A primeira delas: ninguém sabe o tamanho de sua fortuna, que é quantificada por alguns como dezenas milhões e outros como alguns bilhões de dólares. Há também especulações de que ele esteja financeiramente quebrado. Uma coisa é certa: a transparência é zero. E não é nada absurdo supor que Trump use seus mandatos muito mais para fins pessoais do que por missão cívica. Inclusive para vingar-se daqueles que acredita que foram responsáveis por sua derrota na eleição passada, dentro da burocracia governamental e da ala mais tradicional do Partido Republicano.
Um dos traços mais comentados de sua personalidade é a agressividade. A retórica é sempre focada na controvérsia. Um exemplo flagrante é o caso do muro com o México. Trump prometeu que faria um muro em toda a fronteira com o México e faria o país vizinho pagar por sua construção com seus superávits comerciais. É objeto de controvérsia quantos quilômetros de muro foram efetivamente construídos. O que ficou marcado foi a sua fala.
Outra questão fundamental: as tentações autoritárias. Como vimos, Trump não esconde sua admiração por líderes autocráticos. Além disso, houve episódios pouco abonadores em sua derrota em 2020. Tentativas de interferência nas urnas da Georgia, a tresloucada invasão do Capitólio por seus apoiadores. Até que ponto Trump tentaria usar sua maioria já garantida no Senado e sua possível maioria na Câmara para ampliar seus poderes presidenciais e solapar alguns dos freios e contrapesos da democracia americana?
A menos de alguma morte inesperada, Trump poderá indicar dois integrantes para a Suprema Corte. Em teoria, não há grande mudança, já que os juízes que se aposentam são conservadores, indicados por Bush pai e por Bush filho. Mas tendo indicado já três integrantes relativamente jovens, a perspectiva é de uma Suprema Corte de maioria conservadora por algumas décadas. E conservadores do espectro mais alinhado com o ideário trumpista, não conservadores clássicos.
Da mesma forma, Trump tem uma visão de política externa no mínimo controversa. Ao mesmo tempo em que fala na proeminência da América, adula autocratas amigos como Putin. Vê a China como ameaça, mas em mais de uma oportunidade deu um sinal verde tácito à invasão de Taiwan.
Da mesma forma, deu musculatura ao “rato que ruge” Kim Jong-Um ao recebê-lo na Zona Desmilitarizada entre as Coréias.
Na política externa, um dos pontos de maior preocupação é a situação ucraniana. Trump não esconde a admiração por Putin e fala o tempo todo em cortar a ajuda à Ucrânia. Além disso ameaça a Europa com uma saída da OTAN. Mas olhando mais de perto, a ajuda militar à Ucrânia é extremamente benéfica para os EUA. Calcula-se que 85% do valor volte direto para a indústria armamentista americana, que está capitalizando muito bem a oportunidade para sua modernização.
Um arranjo dessa natureza é excelente para os Estados Unidos: mantém ocupado um adversário que é aliado da potência que o desafia (China), sem envolvimento direto, sem mandar força humana, e ainda recebe de volta os custos como estímulo à sua indústria. Nem Henry Kissinger teria concebido um arranjo melhor.
Entretanto, fala-se muito em Trump propondo algum tipo de capitulação da Ucrânia porque “não quer mais gastar recursos americanos com isso”. Fica o questionamento: terá força para implementar essa visão? Ou, de forma mais profunda: qual a sua real visão sobre o tema?
E chegamos ao ponto principal, a China. Vale uma explanação sobre o erro da política americana sobre a China. Nos primórdios da globalização, acreditava-se que uma China plenamente integrada às grandes cadeias globais de suprimentos inevitavelmente adernaria em direção à democracia. O estabelecimento de uma elite econômica suplantaria o poderio da elite política do partido comunista. A criação de uma classe média forte e escolarizada, seguida pela subida de alguns degraus da Pirâmide de Maslow por parte dessa classe média traria a demanda por democracia e liberdade. A China ficaria satisfeita com seu papel de nova potência econômica e se integraria cada vez mais ao arranjo ocidental capitaneado pelos Estados Unidos.
Não foi o que aconteceu. O caminho foi totalmente diverso. Alguns apontam que em função da Crise de 2008, mas a direção do PC Chinês preferiu seguir um caminho totalmente diverso. Escolheu Xi Jinping, filho de um dirigente maoísta que caiu em desgraça na Era Xiaoping. A visão de Xi é que o PC não pode ceder um milímetro de controle. E mais, uma China economicamente fortalecida precisa agora reivindicar seu papel como grande potência. Uma série de liberalizações de décadas passadas vêm sendo gradualmente revertida, grandes empresários são perseguidos (o caso Jack Ma é o mais emblemático). A China tornou-se absolutamente vocal em sua reivindicação de soberania sobre sua “província rebelde”: Taiwan.
E onde está Trump nessa conversa? Entendeu que é preciso contrabalançar o poder econômico chinês e tomou medidas concretas para diminuir a dependência americana (falamos da guerra comercial acima). Acirrou os ânimos em Pequim ao propor mais tarifação. Hostilizou a Huawei. Culpou os chineses pela epidemia de Covid. Novas tarifas podem impactar com força a tentativa de recuperação econômica chinesa, abalada pelas contradições internas de seu modelo (sim, a brincadeira com Marx é proposital).
Outro ponto extremamente sensível é Taiwan. Trump foi o primeiro presidente americano em décadas a conversar com um presidente taiwanês, o que irritou profundamente a China continental. Ao mesmo tempo, insinuou que não apoiaria Taiwan em caso de uma eventual invasão chinesa. Também acusou Taiwan de “roubar” a indústria de chips dos EUA.
A conclusão é que Trump é uma figura controversa, de personalidade imprevisível e intempestiva. A avançada idade (que também foi um problema para Biden) não ajuda muito. Uma democracia saudável tem os meios de conter arroubos autocráticos. A questão que fica é: o sistema de freios e contrapesos servirá para conter momentos delirantes da política trumpista?
O momento da eleição de Donald Trump é extremamente agudo para o governo brasileiro. Comenta-se até que o governo perdeu duas eleições em um mês: as eleições municipais brasileiras (onde o PT conseguiu apenas uma capital e menos de meia dúzia de cidades de médio porte) e a eleição americana. Onde o governo brasileiro é afetado pela eleição americana?
Em primeiro lugar, neste início de novembro a equipe econômica bate cabeça para conseguir algum tipo de sinalização de corte de gastos que seja aceito pelo mercado. O “mercado”, essa entidade oculta e cruel, exerce sua aprovação/desaprovação da condução econômica de um governo comprando ou vendendo seus títulos públicos. Ou deixando de comprar os títulos fazendo com que o governo tenha que oferecê-los a valores mais baixos (o que implica uma taxa de juros mais alta).
Juros e câmbio são, antes de tudo, percepções de diferencial de risco entre países. Desta forma, juros mais altos nos EUA significam ou câmbio pressionado (tira-se dinheiro de títulos brasileiros, compra-se dólar e migra-se para títulos americanos) ou juros mais altos no Brasil (para compensar o diferencial de risco, o COPOM aumenta os juros no Brasil, mais investidores vendem dólar para comprar reais e investir em títulos brasileiros).
Assim, conforme exposto acima, em uma perspectiva de déficits maiores nos Estados Unidos, os juros por lá mantêm-se mais altos por mais tempo. E por consequência, ou o Brasil sobe sua taxa de juros ou sofre com o câmbio.
O grande problema é que os juros e o câmbio no Brasil estão pressionados pela política fiscal que o atual governo adotou. As transferências de renda promovidas até deram uma ajudada no PIB, mas a ressaca promete ser violenta e o mercado está cobrando ajuste de contas.
A equipe econômica vem prometendo um corte de gastos, porém tergiversa quando afirma que “a palavra final é do Presidente da República”. E todos sabem que o PR não é lá muito afeito a falar em corte de gastos.
A filosofia à qual Luís Inácio se apega é a do “gasto público é vida”. Deu certo por um curto período no final do seu primeiro mandato, com efeitos até a eleição de sua sucessora. Mas sem melhora de produtividade, transferência de renda é jogar dinheiro “de lá pra cá” como diria sua sucessora.
Ainda há um efeito secundário que pode ser prejudicial para o Brasil. Em seu antagonismo com a China, uma redução do poder econômico desta pode representar dificuldades para o Brasil, que tem no país asiático seu principal destino de exportações. Particularmente qualquer processo que afete a indústria pesada chinesa pode reduzir ainda mais a demanda por minério de ferro brasileiro, que já não anda nada bem com o colapso do mercado imobiliário da China.
Portanto, do ponto de vista econômico, a vitória de Trump chega em um momento onde o governo brasileiro está pressionado pelo mercado a um corte profundo e estrutural de gastos, sob pena de uma disparada do dólar e da inflação, e pressionado pelo mau resultado das urnas nas eleições municipais. Não surpreende que os ministros da área econômica e das áreas sociais tenham passado mais de uma semana reunidos sem nenhuma conclusão.
No tangente à política, a relação também não ajuda. Jair Bolsonaro é fã declarado de Trump e vê a ressurreição política de seu modelo como um prenúncio de sua volta triunfal em 2026. Além disso, Luís Inácio manifestou à imprensa seu apoio a Kamala Harris, incluindo nada diplomáticas referências a um suposto nazifascismo de Trump.
Não que Trump tenha qualquer interesse sobre o Brasil. Não é o proverbial americano que acha que a capital do Brasil é Buenos Aires. É o tipo que acha que tudo o que está a sul de sua fronteira é rigorosamente a mesma pilha de lixo (ia empregar outro termo, mas alguns de meus leitores ficariam novamente escandalizados).
Do ponto de vista do alinhamento político, Trump volta em um momento onde o Brasil está em uma posição delicada no bloco dos BRICS, que Luís Inácio ajudou a criar em seu primeiro mandato e que enxerga como um artefato de contestação da hegemonia americana. Mas se os BRICS funcionam como uma agência de promoção da agenda de elevação da China à condição de superpotência, também tem Putin, que é “amigo do peito” de Trump, em uma das mais estranhas ambiguidades do presidente americano.
Além disso, há a questão da vinculação de Javier Milei a Trump, que pode dar vazão a um bloco de chefes de Estado alinhados. Também podemos enxergar um antagonismo entre Luís Inácio e Trump na questão climática. O presidente brasileiro insiste que o Brasil terá um papel de liderança no processo de transição energética (é de se perguntar como exercerá este protagonismo, mas isso fica para outra conversa. Donald Trump, na linha inversa, foi responsável por tirar os EUA dos Acordos de Paris. O Brasil sediará a COP30 em Belém em novembro de 2025. Uma eventual ausência de Trump a esta cúpula mostrará um desprestígio à agenda ambiental brasileira.
Assim, enxergamos uma série de desafios ao Brasil neste novo mandato Trump, tanto do ponto de vista diplomático, como do puramente econômico. Esperamos que os diplomatas de carreira do Itamaraty saibam exercer com profissionalismo suas funções e evitar os arroubos terceiro-mundistas da liderança atual.
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